Publicado em: 01/10/2026
Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo: o que esse episódio pode nos ensinar?
Não conheço todos os fatos, as conversas e os antecedentes que levaram a esta situação entre jogador e treinador. Por isso, este texto não pretende dizer quem acertou ou errou.
A pergunta mais útil talvez não seja "Quem teve razão?", mas "O que podemos aprender com isso?"
Atitudes de quem lidera ecoam além do momento!
No futebol, treinadores e atletas experientes são referências, e cada gesto seu é observado:
Como se reage a uma substituição, como se comunica uma decisão difícil, como se aceita (ou se discute) uma escolha.
Isso vale para os dois lados.
Para o Treinador:
- Como comunicar uma decisão impopular com clareza e respeito, sem expor o atleta?
- Como equilibrar a autoridade necessária com a escuta?
- Que mensagem o grupo recebe quando o Treinador toma decisões difíceis sobre atletas de grande nome?
Para o jogador experiente:
- Como lidar com a frustração de ser preterido sem que isso contamine o grupo?
- O que um atleta jovem aprende ao ver sua referência reagir a uma contrariedade?
- Até onde vai o direito de se sentir incomodado, e onde começa a responsabilidade de exemplo?
Para o Grupo:
- Como os companheiros interpretam o que veem?
- Qual é o papel do vestiário em acolher, e não apenas observar, um colega em dificuldade?
Os comportamentos não terminam no momento em que acontecem
Uma atitude, seja uma decisão técnica, uma reação emocional ou uma declaração pública, continua influenciando como os outros pensam, sentem e agem. Os jovens atletas observam, os torcedores interpretam e absorvem o que veem nos profissionais. Quem ocupa lugares de destaque, "Treinador ou Jogador", carrega uma responsabilidade que vai além do resultado do jogo.
O dia seguinte importa:
Toda decisão difícil tem um "Dia seguinte": o atleta que chega ao treino frustrado, o Treinador que precisa manter a autoridade sem perder a relação, o grupo que precisa seguir unido. É nesse momento que se revela a maturidade de um ambiente.
Alguns pontos ajudam a refletir:
- Conversa privada antes da exposição pública. Conflitos tratados com diálogo tendem a ficar menores.
- Clareza de critérios. Atletas aceitam melhor decisões duras quando entendem os motivos.
- Respeito mútuo como regra comum. Hierarquia e histórico não isentam ninguém de tratar o outro com dignidade.
- Cuidado com o emocional.
Para a Comunidade do futebol:
Episódios como este costumam gerar torcida por um lado ou pelo outro. Mas talvez a maior contribuição que possamos dar, como torcedores, profissionais, formadores e jornalistas, seja usar essas situações para discutir cultura de vestiário, comunicação, liderança e formação humana dos atletas, e não para alimentar polarização.
Cabe a cada um perguntar:
- Que tipo de exemplo eu dou no meu ambiente (Time, Escola, Clube, família)?
- Como reajo quando uma decisão não me favorece?
- Como posso contribuir para que o grupo saia fortalecido, e não dividido?
Não precisamos saber quem "jogou melhor" nessa história para reconhecer algo essencial:
Seja de quem lidera ou de quem é referência, toda atitude, mesmo parecendo individual, pode alcançar muito além de quem a toma, e é a responsabilidade compartilhada pelo ambiente que faz o futebol crescer.
Por Claudio Roberto - Treinador do Al Fateh - Árabia Saudita.


