Publicado em: 26/02/2026
Monitoramento de Carga no Futebol: Integrando Tecnologia
Como preparador físico com experiência em diferentes níveis do futebol, desde academias com recursos limitados até equipes profissionais equipadas com tecnologias avançadas, entendo a importância de monitorar as cargas de treinamento para maximizar o desempenho, prevenir lesões e gerenciar a recuperação dos atletas. Neste artigo, será explorado a correlação entre o monitoramento com equipamentos de GPS de alta qualidade (como Catapult ou Statsports) – que fornecem o máximo de dados quantitativos – e estratégias alternativas sem essa tecnologia, focando no mínimo necessário para resultados eficazes. Baseado em evidências científicas e práticas reais, será discutido como esses enfoques podem ser integrados em um microciclo semanal, utilizando o jogo como referência de 100% de demanda.
## O Poder do Monitoramento com GPS: Explorando os Dados
Em ambientes profissionais, os sistemas de GPS representam uma revolução no monitoramento externo de carga, permitindo uma análise detalhada e em tempo real das demandas físicas dos jogadores. Esses dispositivos combinam GPS com acelerômetros, giroscópios e, frequentemente, monitores de frequência cardíaca, gerando uma vasta gama de métricas que vão além do básico, como distância total percorrida.
Os principais dados fornecidos incluem:
- *Distância Total e por Zonas de Velocidade*: Mede a distância em faixas como caminhada (<7 km/h), corrida baixa (7-14 km/h), média (14-21 km/h), alta (21-25 km/h) e sprints (>25 km/h). Análises revelam demandas posicionais específicas, com atacantes cobrindo mais high-speed running (HSR) – tipicamente 100-300 metros por jogo em elites.
- *Velocidade Máxima e Média*: Identifica picos (até 35 km/h em profissionais) e tempo em zonas de alta intensidade, ajudando a avaliar explosividade e fadiga anaeróbica.
- *Acelerações e Desacelerações*: Conta ações >3 m/s², cruciais para lesões em tecidos moles, com jogos demandando 100-200 por partida.
- *Player Load*: Uma métrica integrada de acelerações em três planos, correlacionada com fadiga neuromuscular e risco de overtraining.
- *Potência Metabólica e Gasto Energético*: Estimativas em kJ/kg, integrando velocidade e acelerações para otimizar nutrição.
- *Dados Avançados*: Heatmaps de posicionamento, mudanças de direção e impactos (em colisões), essenciais para táticas e prevenção de concussões.
Na periodização semanal, normalizamos o jogo como 100% de carga para planejar treinos. Em um microciclo padrão (um jogo por semana):
- MD+1/+2: Recuperação (0-40% da carga do jogo).
- MD-4/-5: Alto volume (100-150% em distância, mas baixa intensidade).
- MD-3: Pico de intensidade (80-120% em HSR/sprints).
- MD-2: Manutenção tático-física (60-90%).
- MD-1: Tapering (30-60%).
Estudos mostram que GPS é válido e confiável para esses fins, superando métodos subjetivos em precisão para movimentos curtos e mudanças de direção.
No entanto, thresholds de velocidade devem ser individualizados para evitar subestimação de esforços.
## Monitoramento sem GPS: O Mínimo necessário para resultados eficazes.
Em contextos com recursos limitados, como categorias de base ou clubes amadores, recorremos a métodos de baixo custo que focam na resposta fisiológica e externa básica de cada atleta. Esses enfoques, validados em estudos, correlacionam bem com dados de GPS quando aplicados corretamente.
Estratégias mais frequentes incluem:
- *Session RPE (RPE)*: Atletas avaliam a intensidade percebida (escala 0-10) multiplicada pela duração em minutos, gerando Unidades Arbitrárias (AU). Exemplo: 90 min a RPE 7 = 630 AU. É o "padrão ouro" sem tecnologia, correlacionando com player load e risco de lesão via Acute: Chronic Workload Ratio (ACWR, ideal 0.8-1.3).
- *Duração e Tipo de Tarefa*: Registra tempo efetivo e classifica sessões (técnico: baixa; posse de bola: alta). Multiplica por fatores de intensidade para estimar volume.
- *Questionários de Bem-Estar*: Hooper Index (sono, fadiga, estresse, dor em escala 1-7) ou Total Quality Recovery (TQR, 6-20) para detectar fadiga acumulada.
- *Frequência Cardíaca Básica*: Com relógios baratos, mede tempo em zonas (>80% FCmáx) para carga interna.
- *Testes Simples*: Salto vertical (CMJ) ou sprints curtos para monitorar performance neuromuscular.
Na periodização, usamos RPE para replicar o 100% do jogo: picos em MD-3 (alta intensidade) e tapering em MD-1.
Estudos indicam que métodos subjetivos são confiáveis para rastrear movimentos, especialmente em esportes indoor ou com distâncias curtas.
## Correlação e Integração: Do Máximo ao Mínimo para uma Abordagem Híbrida
A correlação entre GPS e métodos sem tecnologia reside na capacidade de ambos medirem carga externa e as respostas fisiológicas para o mesmo fim: equilibrar treinamento e recuperação. Pesquisas mostram alta correlação entre player load (GPS) e sRPE/HR, permitindo transições suaves entre cenários.
Em equipes com GPS, integre sRPE para carga interna; sem GPS, use questionários para "calibrar" estimativas.
Vantagens do GPS: Precisão em métricas de alta intensidade e personalização (ex.: ACWR por posição).
Limitações: Custo alto e dependência de thresholds absolutos, que podem subestimar esforços individuais.
Sem GPS, o mínimo (RPE + questionários) reduz lesões em até 20-30% quando ACWR é monitorado, mas exige consistência.
Ao longo da minha trajetória, posso sugerir que comece com o mínimo e escale para o máximo conforme recursos. Mesmo em equipes sem GPS, consegue se manter performance competitiva com foco em bem-estar diário, enquanto GPS eleva a precisão em elites.
## Conclusão
Monitorar cargas no futebol é essencial, independentemente dos recursos. Com GPS, exploramos os dados para otimização fina; sem ele, o mínimo necessário garante segurança e progresso. Integrando ambos, criamos periodizações robustas que priorizam o atleta. Invista no que é acessível, mas sempre priorize dados consistentes para resultados duradouros.
Ayrton Lenner, Preparador Físico de Futebol, atualmente no Al Wasl Club.


